segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Seu Flaviano e o navio de guerra

Em uma cidadezinha holandesa existe uma ponte estreita de pequenas dimensões, localizada numa fronteira com a Alemanha. E foi de enorme importância quando da invasão alemã, na II Guerra Mundial. É que numa manobra corriqueira do exército invasor, quando todos os seus soldados se encontravam do outro lado da ponte, em território alemão, a comunidade se reuniu e implodiu a ponte, único acesso possível. O ato impediu a volta do exército invasor e aquela pontezinha tomou enormes proporções no imaginário popular! Seu Flaviano, mentiroso costumas, bem que poderia conhecer essa história, pois atribuiu ao Tejipió a mesma proporção dada àquela pontezinha holandesa. Para começo de conversa é preciso esclarecer que o Tejipió só é um rio em nosso imaginário. Aqui mesmo eu o tenho dado status de rio, embora se trate de um riacho ou mesmo um córrego que só se avoluma em período de enchentes. Daí já apresento minhas desculpas pelo pequeno lapso.

Numa de suas invencionices seu Flaviano, em sua velha espreguiçadeira, nos conta a maior de suas mentiras. “Acreditem se quiserem, não sou homem de mentiras! Aqui, atrás da minha casa, já atracou um navio de guerra”, sustentava o mentiroso. A meninada, em volta da espreguiçadeira, disfarçava a incredulidade diante do absurdo. Eu, por exemplo, quis dar desconto imaginando que se tratasse de barco com porte que o Tejipió comportasse a navegação. Mas já estaria demasiado fantasioso. Então fomos surpreendidos – eu e a meninada – com o desfecho da história. Seu Flaviano ergueu-se do assento, olhou adiante, onde havia uma campina, mirou uns 100 a 200 metros e disparou: “O navio ia daqui até Areia!”. Aquela colocação nada dissera do deslocamento do navio, mas seu comprimento. Pasmem! De Coqueiral, onde estávamos, até Areia contam-se uns 3 quilômetros de distância.
Ao contrário do que muitos pensam, navio assim, nem o porto do Recife comportara!

Pra ver a banda passar

O primeiro surdo da Filarmônica 1º de Dezembro tinha dono, segundo Bonifácio Batista: Era dele! Tocava com maestria aquele instrumento que marcava o compasso de toda a banda. Além do mais era músico conceituado entre os companheiros da Filarmônica, talvez com muito mais influência que o próprio maestro. Julga-se isso por alguns episódios envolvendo esse nosso “virtuoso” e os maestros que por ali passaram. Conta Vicente Simão, sabedor dos meandros da vida esperancense de então, que Bonifácio Chuá-chuá, durante as comemorações de aniversário da cidade, levou a plateia ao delírio, prostrada que estava em via pública, pra ver a banda passar. Em qualquer que fosse a ocasião, era a banda a grande sensação dos eventos de um tempo não muito remoto na vida brasileira. As pessoas saiam às janelas ou às ruas, enfileiravam-se para vê-la passar com a pompa e circunstância que o evento exigia. Um verdadeiro glamour, independentemente do porte da banda de música ou da cidade. Eram momentos mágicos com os músicos em suas fardas de gala, entoando hinos, dobrados e encantando toda a gente.
Pois bem, foi nesse cenário glamoroso que se deu o mais célebre episódio protagonizado por este nosso vulto esperancense, o Chuá-chuá. Dado à importância do evento o maestro traçou um percurso fora dos moldes e costumes. Nos ensaios da Filarmônica 1º de Dezembro não se falava de outro assunto, era tema recorrente o rumo que a banda tomaria pelos arruados de Esperança na festividade tão aguardada pela população. Bonifácio, com anuência dos colegas, era porta-voz da insatisfação pela mudança de roteiro. Não era o percurso que gostariam de fazer, mas como diz um velho ditado “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. E juízo, conforme Vicente Simão, não era o forte de Bonifácio Batista.
Era chegado o grande dia! Lá estava a nossa Filarmônica, já havia percorrido toda a Rua Manoel Rodrigues, em direção à Matriz de Nossa Senhora do Bom Conselho, quando se deu o impasse. Em frente à Igreja a banda é convocada à “meia volta volver”, conforme o gestual do maestro. Bonifácio se insurge contra as ordens superiores e instrui os músicos a dobrarem à direita, desfilarem na João Pessoa, retornando pela Sólon de Lucena, antiga Rua do Sertão. O maestro, sem perceber e para o delírio geral, volta sozinho e só. Chuá-chuá, dali por diante, não faz mais parte da Filarmônica: É demitido em meio à multidão!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Abre! Tais vendo o dinheiro? Fecha...

Aos 94 anos de idade muitas foram as histórias de Silvestre Batista. E elas estão divididas em dois tempos, um antes e outro a partir dos sintomas da Alzheimer. Ao contrário do que muitos pensam, a doença acomete cerca de 15% dos 60 milhões de pessoas com mais de 60 anos de idade, no Brasil. 2 milhões e 250 mil destes são acometidos pelo mal, segundo dados da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz). Seu Silvestre era integrante dessa estatística. Os sintomas são comuns aos portadores da doença.
Dentre os muitos sintomas do Mal de Alzheimer está a desconfiança. Por isso Silvestre carregou, por mais de uma semana, um volume considerável de notas de Real, moeda corrente em nosso País, que somavam seis mil. E andava rua acima, rua abaixo, com a volumosa quantia em um dos bolsos da calça. Claro que tínhamos o cuidado de ter alguém “pastorando”, mesmo a contragosto seu. Mas havia um perigo iminente por chamar a atenção dos transeuntes. Naquela semana dormia com a mesma calça, cuidado permanente.
Até que, por insistência minha, resolveu usar o cofre remanescente da Alfaiataria Pernambucana, de sua propriedade, década de 1940. A ideia foi boa porque não mais haveria o risco de roubo ou furto em via pública, mas o zelo com o dinheiro nos tomava tempo e paciência. Numa das vezes em que fui solicitado para averiguação da existência do volume guardado, me tomou quase uma manhã de domingo. Para sorte minha recebo a visita − mais que providencial − do compadre Manoel Rocha, homem da inteira confiança de Silvestre. Então explico rapidamente o que se passara e passo o posto ao compadre. Silvestre não perde tempo e inicia sua averiguação:
- Rochinha, tais vendo o dinheiro?
- Tô, seu Silvestre!
- Então fecha o cofre!
- Fechei, seu Silvestre!
- Abre pra gente ver!
- Abri!
- O dinheiro tá aí?
- Tá, sim, senhor!
- Fecha...
Essa averiguação se deu por alguns momentos até que sou procurado pelo compadre Rocha me informando, já sem paciência: “Carlos, essa já é a trigésima vez que abro e fecho esse cofre!”. Ao me ver por perto, Silvestre continua: “Carlos, por obséquio, abre esse cofre...”.

Cadê Papai Noel?


Morávamos às margens do Rio Tejipió, em 1965, quando descobri aos dez anos de idade a inexistência do Papai Noel. Até então tudo era mágico neste período natalino, nossos sapatos postos em baixo da cama para receber os presentes que nunca faltaram. Era maravilhoso acordar e encontrá-los bem ali, como de costume. Meus irmãos e eu fazíamos aquela farra a cada manhã despertada com o desembrulhar papéis dos presentes.

Na nova residência, à beira do rio, morando num barraco bem acabado de madeira descartada dos velhos vagões de trem. Era a mais modesta das moradas da Rua Arês, no bairro de Tejipió, ali nos arredores de Recife. Terminada a rua tínhamos uma campina onde buscávamos a água que nos servia ao consumo e até para o beber. Na campina havia um casebre ainda mais modesto que o nosso, onde morava o Guima, meu melhor amigo. Seu Paulino, o caseiro, tinha mais três filhos além de Guima: duas meninas e um menino cujos nomes me fogem da lembrança.
Aquele casebre mal os abrigava das noites invernosas, era coberto de um zinco envelhecido pelo tempo. À noite se via estrelas salpicando o chão, permitidas pelas frestas do teto. E se não os abrigava tão bem das chuvas, trazia um calor enorme nos dias quentes de verão. Mas tudo corria bem, levava-se uma vida alegre, mesmo naquela pobreza material. Brincávamos pela campina, era uma meninada divertida apesar dos pesares. Até que chegou o Natal.
Ao contrário do que muitos pensam, éramos privilegiados, meu pai, ferroviário, recebia os nossos presentes da Great Western. Foi-se a noite de Natal, dia amanhecido corri para mostrar meu presente de Papai Noel. Na casa do seu Paulino não se tinha notícias desse personagem natalino. Esforcei-me em explicar a Guima e seus irmãos que Papai Noel havia passado lá em casa e nos brindado. Caí na real ao ver Guima, o filho mais velho, lhe indagar: “Papai, cadê Papai Noel?”. Seu Paulino nada respondeu, deixando cair lágrimas dos olhos!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Salve! O menino chegou


É madrugada quando escrevo para anunciar que ele chegou. E chegou às vésperas, quando todos aguardam a chegada de outro menino, o Jesus de Nazaré. Antônio Cláudio Fernandes Filho é quem anuncio ao mundo. Seu advento se dá no longínquo 1964, neste mesmo dia 24 de dezembro. Há exatos 50 anos vinha ao mundo o primeiro sobrinho, filho do meu irmão Antônio Florisvaldo e Maria das Graças, cunhada. Toni, como é carinhosamente chamado, não conheceu seu pai. Sua mãe, bela e dedicada esposa, enviuvou gestante, concebera fazia dois meses, apenas.

Seus avós maternos Manoel e Joselita Fernandes rumaram para São Paulo, deixando o vilarejo de Rio Una, pertencente ao município de Barreiros-PE, história aqui já retratada sob o título “Último Adeus”. Foi em Santo André, ABC paulista, que o menino Toni vê as cores do mundo. A partida de Gracinha, ainda gestante, deixou saudade e tirou a possibilidade de ver nascer e acompanhar mais de perto o desenvolvimento da criança, o que seria um alento para nós e nossos pais Soares e Do Carmo, seus avós, dado a perda de Antônio, meu irmão, ainda muito jovem, aos 21 anos de idade. Em meados de 1970, seis anos após o nascimento, recebemos a visita tão esperada do menino Toni, sua mãe e avós maternos. Nessa visita, à sua terra natal, parte dessa vida o Sr. Manuel Fernandes, no município de Barreiros. Toni, portanto, volta a São Paulo na companhia da mãe e avó.

Daí em diante, devido às circunstâncias, perdeu-se o contato com Antônio Cláudio, sua mãe, avó e seus tios. Minha mãe vivia numa busca incessante sem nenhuma notícia, uma pista de onde se encontrara a família Fernandes. Havia perdido o filho e não mais encontrara o neto. Dona Do Carmo se foi sem que houvesse esse encontro. Somente em 1997, por mero acaso, tem-se notícia do paradeiro daquela família, o que nos fez empreender a busca e o reencontro. Encontramos, finalmente, o menino que acaba de completar 50 anos. Homem de muita lucidez, dado às causas do bem, orgulho de todos os que partilham do seu convívio. Íntegro é o termo que melhor o define.

A Toni a nossa bênção e os Parabéns!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Bonifácio Chuá-chuá


Lá pelos idos de 1950, postes de madeira fixados e fiação instalada era chegada a hora da população festejar o advento da iluminação pública com energia movida por um motor de 40 cavalos de força, apelidado de "Usina de Luz". Seu Jaime, o encarregado da manutenção do motor, ao acioná-lo, vê seu intento fracassado. Volta a acionar e nada. Mais uma tentativa: Chuá-chuá-chuá... Era o barulho que se ouvia e frustrava a multidão ansiosa. A inauguração deu n’água e o “vexame” se espalha mundo afora. Para azar do prefeito e infortúnio de Bonifácio  Batista, o seresteiro da cidade, as rádios tocavam o grande sucesso do momento “Chuá-chuá”, na voz de Vicente Celestino. Naquela noite enluarada e sem a luz prometida, um coro, talvez por capricho da oposição, chama a atenção de Manuel Rodrigues, o prefeito, que junta seus “cabras” e parte para acabar com a farra.

“E a fonte a cantar, chuá, chuá; E a água a correr, Chuê, chuê... Bonifácio, com seu violão, vinha à frente do cortejo tocando, cantando e animando os seresteiros. Numa paralela à rua principal, já dobrando para sair na Igreja Matriz, vê-se os faróis acesos, de um automóvel parado. Incandescidos pela luz forte nenhum dos seresteiros imagina do que se tratara. Descem do carro o prefeito e seus seguranças rumando em direção ao som do violão. O cantor, entusiasmado, pensa ser mais um a engrossar o cortejo. Então Bonifácio aumenta o volume e segue na direção da luz incandesceste.
Ouve-se um grito na multidão, agora sem a entonação dantes, e sem o coro do chuá-chuá. A multidão se dispersa na escuridão da noite, mas ao luar dá para ver um vulto estranho correndo com algo dependurado ao pescoço. Conta Vicente Simão, conhecedor amiúde das acontecências de seis décadas na cidade de Esperança, que aquele vulto esquisito era Bonifácio, cujo pescoço trazia um violão despedaçado e um emaranhado de cordas presas às partes de madeira que compunham o instrumento. Aquele episódio deu fim a um violão, mas serviu de batismo a um grande seresteiro: Bonifácio, o Chuá-chuá!

domingo, 21 de dezembro de 2014

Vim, vi, despedi

Não faz muito e o Face tomou conta do nosso cotidiano, assim como já ocorrera ao Orkut, MSN, Twitter... Cansei. Nada de errado com as redes sociais, algo acontece comigo que fico arredio a tanta exposição apenas pela exposição. Decerto que há coisa incríveis acontecendo por aqui, mas tudo quase sempre previsível. E a vida, convenhamos, é muito rica para tanta previsibilidade.

Ao contrário do que muitos pensam, gosto de estar aqui, sim, mas dá-me angústia ao ver algo que me pareça repetição. Já disse, acima, o erro está em mim. Há uma riqueza imensurável nessas redes, a começar pelas conexões possíveis e imagináveis. A aproximação de gente daqui com gente de alhures, algo inimaginável há poucas décadas. Imagino um evento desses na Antiga Grécia, com o conhecimento sendo repassado via Face. A disseminação do pensamento dos filósofos pré-socráticos, o ideário de Platão, Aristóteles. As descobertas de Gutemberg, Gagileu, Copérnico, da Vinci, Einstein. 

As músicas de Bach, Beethoven, Mozart...É justo aí que mora meu banzo. Que público estaria propenso a “consumir” tão precioso produto, já usando uma linguagem do mundo moderno, consumista? Discorro sobre exemplos de seres humanos que por aqui passaram e nos encantaram com tão grandiosas obras − com a devida ressalva a Sócrates, dado a possibilidade de sua não existência −, fugindo da seara esotérica e tudo que a envolve. Decerto que sentirei saudades desse convívio (quase) cotidiano, mas deverei focar o tempo, despendido aqui, na produção diária de textos para o Blogspot: http://muitospensamaocontrario.blogspot.com.br/, onde abordarei, preferivelmente, temas memorialistas que muito me aprazem. 

Um abraço!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Coisa rara de se ver

Ontem, a noite foi pra lá de especial, enchi os olhos e a alma com a arte dos formandos da PROCULT - Pró-Reitoria de Cultura da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. Falo da 3ª Mostra deArte do Centro Artístico Cultural, culminância dos cursos de Dança de Salão, Pintura, Percussão Regional, Canto Coral, Violão, Sanfona, Balé Clássico e Teatro. Parecia final de campeonato de futebol, guardadas as devidas proporções, posto que o Teatro Severino Cabral, palco do evento, oferece 586 lugares, em sua parte central, além dos 58 camarotes. Não tenho dúvida, o Severino Cabral recebeu, ontem, um dos seus maiores públicos, desde a inauguração, em 30 de novembro de 1963.
Os números falam por si. Apresentaram-se mais de 500 alunos/formandos e, como se não bastasse o espetáculo, em si, mais de uma tonelada e meia de alimentos não-perecíveis foi arrecadada, trocada por ingressos e doadas a instituições assistências de Campina Grande. A formação de público para teatro e afins é uma preocupação que trago comigo. E foi justamente o público de ontem o grande diferencial, mesmo levando-se em conta o alto nível das apresentações. Outro ponto positivo, a meu ver, foi a heterogeneidade nos gêneros, instrumentos e faixa etária dos formandos.
Não há como não enfatizar e, além disso, enaltecer a participação de 17 alunos do corpo de balé da UEPB, são esperancenses e integram o antigo PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), que hoje forma outra sopinha de letras: SCSV (Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos). A plateia “veio abaixo”, após o anúncio do corpo de balé da UEPB, pelo cerimonial de Saulo Queiroz, coisa rara de se ver numa plateia, também, tão heterogênea.
Parabéns a UEPB, através do seu Magnífico Reitor, o também artista Rangel Júnior. Parabéns às nossas crianças que tanta esperança nos trazem, através de tão nobre arte!

domingo, 14 de dezembro de 2014

O ódio que assusta!


Tenho vindo pouco ao face, blogs e à net. Sou seleto quanto à programação televisiva, mas vez por outra me deparo com o golpismo que circunda a democracia, conquistada a duras penas, com sangue, suor e lágrimas de brasileiros que acreditavam ser possível sonhar em um mundo sob o prisma da liberdade, igualdade e fraternidade.
Quem vem à rua, ou às redes sociais, sugerindo um golpe militar como saída para a conjuntura brasileira, desconhece a história. No mínimo nunca ouviu relatos daquilo que se apresenta como o mais triste período do Brasil República – sem se esquecer do período escravocrata da nossa história −, onde o “Ame-o ou deixe-o” era a senha para o exílio, às mutilações nas torturas (físicas e psicológicas), os desaparecimentos e, por fim, às mortes de líderes estudantis, sindicalistas e políticos.

Informo, a todos os que ao golpe recorrem, que o único crime cometido por esses tantos brasileiros, cujas famílias ainda hoje clamam por justiça, ainda hoje sem notícias de muitos dos seus entes, foi a defesa da democracia. Que os defensores de um golpe se coloquem, por um breve momento que seja, na pele desses bravos homens e mulheres brasileiras. Jovens, em sua maioria, com carreiras promissoras em suas áreas de atuação: jornalistas, teatrólogos, artistas, compositores ou trabalhadores urbanos e rurais dados à luta por um Brasil dos brasileiros, livre da escuridão instaurada em 64.
Por fim, saibam o que ocorreu a Gregório Bezerra, um dos arautos da resistência ao golpe militar de 64 que, preso em Cortêz, zona canavieira de Pernambuco, foi transferido para o Recife, onde foi torturado e arrastado pela praça do bairro de Casa Forte, com uma corda no pescoço, e teve os seus pés imersos em solução de bateria de carro, ficando em carne viva, e este espetáculo foi exibido pelas televisões locais à época. Não encham a boca, as ruas ou as redes clamando pelo golpe. Leiam o relatório final da Comissão Nacional da Verdade
:http://bit.ly/relatoriofinalcnv

Esse ódio assusta!

sábado, 13 de dezembro de 2014

Aquela sanfona branca...


A mãe não lhe queria embrenhado pelos sertões nordestinos, animando as festas de apartação, derruba de gado, casamentos, batizados, aniversários como se antecipando estivesse sua arribada para Fortaleza e Minas Gerais, no serviço militar e, daí, para o Rio de Janeiro e São Paulo, desenhando sua trajetória de sucesso com o encantamento de sua arte. Foi assim que reagiu, dona Santana, ao contrário do que muitos pensam, ao ver aquele menino se engraçando do fole de oito baixos do velho Januário. Claro que falo de Luiz Gonzaga do Nascimento, aquele menino sabido que Exú, um pedaço terra encravado no alto sertão pernambucano, presenteou ao mundo em 13 de dezembro de 1912.

Foi precisamente no povoado de Araripe, fazenda Caiçara, que Januário e dona Santana ouviram o primeiro choro do pequeno Gonzaga, o matuto mais astuto que a música brasileira concebeu. Naquele ambiente de trabalho roceiro, a lida com o gado, a passagem árida da seca e as andanças com o velho Januário, arrastando seu fole acompanhado pelo toque do triângulo e zabumba, foi que Luiz encontrou a fonte inesgotável de poesia e encanto pelas coisas da terra: sua gente e seus costumes.

A genialidade de Gonzaga e reconhecimento por sua obra nunca o afastaram de suas raízes. Luiz, sem dúvida, tinha a exata noção do que representava, mas seus traços nobres não ficaram pelo caminho. O sotaque nordestino que fazia questão de enaltecer e outros atributos ele levou consigo vida afora. Ouvi de Gildson Oliveira e Rui Cabral ao tempo de minha estada no Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, respectivamente e, a bem pouco tempo, em conversa de camarim com o consagrado Pinto do Acordeom com décadas na companhia de Gozaga , relatos de suas vivências com o Rei do Baião. O tino artístico, a perspicácia, o humor inteligente, a simplicidade e a generosidade eram, segundo os depoimentos, as maiores virtudes do velho Lua.
E eu canto com Benito Di Paula: “Aquela sanfona branca / Aquele chapéu de couro / É quem meu povo proclama / Luiz Gonzaga é de ouro / Aquele tom nordestino / A voz sai do coração / É ele o rei do baião, é Luiz / É cantador do sertão É filho de Januário / É quem canta o Juazeiro / É festa, é povo, Luiz alegria / Luiz Gonzaga é poesia”.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Meu vírus e o pensamento!

Meu relógio marca o tempo, em seu compasso, me orienta ao meio-dia e meia. Quase encerrando resenha de um texto kantiano “Que significa orientar-se no pensamento?”, sou testemunha auricular de um ruído que, certamente, passa despercebido por muita gente, brasis afora. Rafiro-me ao ruído do “Esquenta” do Plim-plim. 
Ao contrário do que muitos pensam, muitos pensam ao contrário, não estou de olho grudado na TV, sou vítima passiva desse mal gosto e descomprometimento com a vasta, rica e pomposa cultura brasileira. Sou nada ouvidos pra esse lixo televisivo que, recorrentemente, contexto. Mas o som se propaga pelo ambiente e sou atingido de cheio com os gêneros e personagens tão batidos e repetitivos, como se o Brasil só produzisse essa “coisa”. Aqui não falto com respeito aos gêneros musicais e seus personagens, mas indigno-me com tão poucas opções para uma TV que “comete” uma programação nacional, padronizando hábitos e costumes, colonizando – por assim dizer – com o viés burguês de quem detém o quarto poder. Essa herança maldita tem origem no Golpe de 64, com o advento das redes televisivas. E parece que conseguiram aniquilar o pensamento e bom gosto, pelo menos de boa parte da nossa gente.

Indigno-me por saber do quanto produzimos em arte, detentores que somos das mais variadas manifestações culturais. Antes das redes nacionais de TV, produzíamos rádio-teatro, tele-novelas, programas jornalísticos, humorísticos... na radiodifusão e canais locais de TV. Meio século dessa colonização “sorrateira” nos faz imaginar, até, que não existimos neste âmbito da produção cultural. Nossos artistas e agentes culturais de modo geral, técnicos, comunicadores, nas diversas mídias, não existem nessa ótica perversa da colonização que nos massacra.

Aproveito e jogo praga: Ah se um dia fôssemos infestados pelo vírus da indignação ou que nos orientássemos no pensamento!

domingo, 30 de novembro de 2014

O refúgio da leitura

Dia enfadonho de trabalho árduo e pouco lazer. A manhã desse domingo foi de céu claro, sol forte e convidativo às tarefas já tão corriqueiras no, agora, Casarão Silvestre Batista, assim batizado pelo colega Evaldo Brasil. O enfado nos convida a permanecer em casa com familiares e amigos. TV ligada, não dá para sair em busca de uma boa música, destoando de todos que optam pela programação televisiva.
Aí ocorre aquela coisa, inevitável, propiciada pela comodidade do controle remoto: busca-se algo diferente, que seja do agrado geral. Remota, sabe-se, é a possibilidade de se encontrar algo diferente e, mais difícil ainda, agradável. A TV aberta abriu falência faz tempo, muitos ainda não se deram conta, inclusive os próprios diretores de programação. O público fica a reboque dessa má qualidade, habituado que está com o chamado gosto médio, tão combatido pelo saudoso Ariano Suassuna. Mas, justiça seja feita, nem tudo se perdeu neste domingo. Em meio ao lixo, uma pérola! Ouço uma chamada inicial de uma matéria tratando da possível melhor nota do Enem 2014. Achego-me e me junto aos demais telespectadores para assistir ao depoimento de João Vitor, um jovem cearense de apenas 16 anos, estudante de escola pública, que cometeu a proeza de acertar 172 das 180 questões propostas pelo Enem: João acertou 95% da prova!

A vida do João, a dedicação de sua mãe frente às dificuldades de mãe/provedora da família, já é, em si, uma proeza. Mas esse menino sabido, diz ter sido vítima de bulking, por ter o habito da leitura. A biblioteca onde frequenta é seu melhor refúgio. O Brasil de tantos brasis, ao contrário do que muitos pensam, precisa aprender a ensinar aos filhos dessa Pátria-Amada-Mãe-Gentil que só há uma a saída:
O refúgio da leitura, como bem faz esse João!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Último adeus



Era ainda muito criança quando a conheci. Lembro da viagem, estrada afora, cujos detalhes se foram, apagados pelo tempo. Viva, muito viva, tenho à memória, todo aquele cenário da Rio Una que me acolheu nos idos da década de 60.  Antônio Florisvaldo, meu irmão mais velho, me levara para conhecer sua noiva e familiares, o ano era 1962.


O lugarejo localiza-se no município de Barreiros, zona canavieira, ao Sul de Pernambuco. Um vasto campo arborizado, gado pastando, carros-de-boi fazendo o pequeno tráfego de canas e mangaios enchiam minha visão pueril. Trago na memória, bem fresquinhas, as lembranças do banhos com sabonetes Eucalol, dos quais ainda sinto o cheiro ao fechar os olhos. Os filmes de Chaplin, do Gordo e o Magro, o amendoim à entrada do pequeno cinema... Tudo, tudo às expensas dos anfitriões.



A vila de Rio Una abrigava, em seu casario, os trabalhadores da usina do mesmo nome. Seu Manoel Fernandes, sogro do meu irmão e pai de Graça, a noiva, era alto funcionário na Rio Una com suas caldeiras e moendas já em processo de falência. Era homem de fisionomia fechada contrastando com seu largo sorriso. Mas é de Dona Josélia que pretendo lembrar. Aquela mulher de voz branda, traços, passos leves e finos gestos, era por assim dizer uma verdadeira lady inglesa. Este contato com dona Joselita (assim a tratávamos) abre, para mim, uma janela para o mundo da polidez. Não era de se notar que aquela senhora fosse mãe de seus oito filhos com seus tantos afazeres de dona-de-casa.


Após a travessia, lembro bem, aceno aos que se encontram na outra margem do rio. Lá, também, estava dona Joselita. Havia quase trinta anos quando reencontro dona Joselita com minha cunhada Gracinha, o sobrinho Toni, alguns filhos netos. Mais uma vez, agora na longínqua Santo André, ABC paulista, aceno com mais um adeus.


Hoje, pela manhã, recebo notícia de sua partida aos 94 anos: Último adeus!

domingo, 23 de novembro de 2014

Seu Lunga: Só fazendo de conta!

Diante de tarefas exaustivas, lendo, ruminando e elaborando trabalhos da graduação em Filosofia, além de outras labutas cotidianas, não me tenho dado ao prazer de escrever "Ao contrário do que muitos pensam". Esta tarde, porém, numa dessas garimpagens pela Net e suas redes sociais, deparo-me com uma notícia que me faz pausar os trabalhos e escrever algo a respeito.

Recorro, então, ao primeiro endereço que me sirva um dicionário para entender o significado da palavra risível. Lá encontrei, por exemplo, que “Risível significa qualquer coisa que provoque, cause e que seja digna de riso, é qualquer acontecimento, fato ou pessoa que faça um indivíduo rir. Risível pode ser atribuído a uma pessoa específica, ou a fatos que aconteceram” Outra versão sugere que “Risível também pode ser usado em um sentido pejorativo, como algo que seja ridículo, grotesco, que faz rir, mas não em um sentido agradável, e sim rir de um fato patético, que não necessariamente é cômico”.


Não importa em qual versão se enquadrava Joaquim dos Santos Rodrigues, importa, sim, o quão importante ele é e continuará sendo para nossa cultura nordestina. Figura “folclórica” cuja fama transcendia o Nordeste, Seu Lunga, dotado de muita sabedoria e esperteza, nos brindou por muitas décadas com suas tiradas “mal-humoradas”, pérolas de alguém que – ao contrário do que muitos pensam – vivia muitíssimo de bem com a vida.

Fosse perguntado, por algum desavisado, sobre se morrera, realmente, certamente que Seu Lunga responderia a seu modo e de bate-pronto, com toda verve do humor latente e voraz: 

“Morri não, peste: Tô só fazendo de conta!”

domingo, 9 de novembro de 2014

O amor, sempre o amor!


O amor não pede licença, não pede passagem, não se anuncia, chega, invade. O amor é expansivo, ocupa o ser por inteiro e o leva a reboque de suas acontecências. Antes, porém, ele se apresenta em forma de paixão, coisa avassaladora, insustentável. Sérgio Cortella, em seu filosofar, nos ensina que o apaixonado perde a noção de tempo, não dorme direito e acaba se esgotando. Que ela se transforme em amor, o mais breve possível, como ocorreu com Fernando Almeida, meu irmão caçula. Fernando bem que podia sucumbir à dissimulação, seria até mais cômodo, mas não percorreu este caminho e encarou a realidade, o preconceito que poderia advir de sua tomada de posição. Havia pouco tempo após sua viuvez quando conheceu a bela e jovem Denilda Andrade.

O primeiro encontro, ao contrário do que muitos pensam, foi marcado para um banco de praça, ponto central do município de Belo Jardim-PE, onde residem. Há quem opine pela discrição, com um namoro levado às escondidas, distante dos olhos atentos, bisbilhoteiros da comunidade. Bem próximo dali está o local onde deu origem à Festa das Marocas, onde um grupo de senhoras não deixavam em brancas nuvens qualquer detalhe da vida alheia. Maroca era uma personagem “fofoqueira” de Redenção, novela de sucesso retumbante lá pelos meados da década de 60. Havia uma variedade de marocas, Fernando bem sabe, mas seu gesto é espelho do caráter desse Almeida que entra de cabeça nas coisas em que acredita e, em se tratando de amor, não abrirá mão de ser e fazer Denida feliz.

Com a bênção e aquiescência dos filhos, irmãos, demais parentes e amigos, contraiu núpcias com Denilda, em 25 de outubro passado, inaugurando uma nova etapa em sua vida, em busca de felicidade compartilhada: O amor, sempre o amor!