sábado, 31 de janeiro de 2015

Sexagenário

Acordei e nada notei diferente. Tudo está do mesmo modo dantes, afora a certeza do envelhecimento comum a todo mortal. Eu não fujo à regra, percorro o mesmo caminho. Logo mais, precisamente às dez horas, entrarei no rol dos sexagenários. Um longo caminho percorrido para quem nasceu de sete meses e, antes de vestir o timão (aquela roupa dos recém nascidos) foi envolvido numa mortalha. Não sobreviveria, segundo dona Maria Barbosa, a parteira. Madrinha Geraldina e sua mãe, madrinha Tonhá, saíram às pressas em busca de pano para tecer a mortalha.
Imagino-as descendo as escadarias da Rua Natividade Saldanha, bairro de Cavaleiro, na Jaboatão que ainda viria a ser dos Guararapes, muitos anos depois. Driblei a morte no dia do nascimento. Dias depois veio o alarme: tragam a vela, o menino morreu! A sentença foi traída pelo meu choro. Um pingo queimou-me os dedos e alardeei ao mundo que estava vi-vê-o-vó!
Mais tarde outra sentença pedia a piedade e os cuidados redobrados dos meus pais para comigo: não chegaria aos dez anos. Donde o doutor Petrônio tirou essa ideia, não sei, mas a sentença estava dada e por este motivo não fui à escola, nem levei “peia”. Só aos dez anos sentei-me num banco escolar e provei do verbo “apanhar”. Isto depois de passar por uma tuberculose aos cinco. Talvez deva agradecer às promessas de minha mãe. E foram muitas. Lembro de tê-las pago junto a dona Maria do Carmo, minha mãe, que de mim não desistia. Ia no trem de Paquevira cumprir promessa em São Benedito; o trem de Carpina nos levava a São Severino do Ramo e; o da Serra, à Belo Jardim, pagar promessa a São Sebastião. Tive que andar muito de trem, num périplo da fé, para me manter vivo. Daí um enorme apego às estradas de ferro, suas locomotivas, vagões e estações de passageiros.
Passageiro desta viagem, já sexagenária, cultivei amizades, muitas amizades. Sempre procurei não criar ou deixar arestas. Ao contrário do que muitos pensam, perdão e desculpa fazem parte do meu vocabulário cotidiano. Cometi muitos erros, estou certo disso, mas os acertos me dão um saldo pra lá de positivo. A vida é generosa comigo, a ela sou muito grato. Vou por aí desfrutando de suas belezas e, também, das muitas agruras, caminhando, cantando e seguindo a canção:
“Ando devagar porque já tive pressa e levo este sorriso porque já chorei demais”.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Uma conversa puxa outra

Já fora atendido, aguardava apenas a entrega da encomenda. Sentei-me, então, à mesa. A curta conversa com dona Robéria Belarmino, proprietária daquele estabelecimento, fora interrompida com uma breve observação de Heloísa Duarte, sua irmã. Muito sorridente ela interage com alguma funcionária, passando bem à minha frente: “Esbelte! Assim como Carlos. Não é, Carlos?”, ao que respondo afirmativamente com a cabeça. Heloísa fizera referência ao seu corpo habituado às caminhadas e malhações. Eu, como não tenho trauma em revelar minha idade, reafirmo sua referência e dou-lhe uma informação que ratifica aquele seu comentário elogioso:
- Você tem razão, Heloísa. Amanhã “intero” sessenta!
Percebo, então, que chamara a atenção de Robéria a me perguntar:
- Quem faz sessenta anos amanhã, Carlos?
- Eu, Robéria. Sessenta anos amanhã, dia trinta e um!
Houve mais um comentário de ambas e retomamos nossos afazeres.
Uma conversa puxa outra. Robéria e Heloísa são filhas de Jurandi Jesuíno de Lima - Didi de Lita, numa referência a um dos mais importantes empresários esperancenses, José Jesuíno de Lima - Lita. É da nossa cultura fazer referência a alguém, algum lugar ou mesmo a alguma coisa quando se quer nominar outrem. Daí surgirem João de Patrício, Jaime de Pedão, Severino Tatá, Dedé da Mulatinha, Zé da Véia... São peculiaridades culturais bem nossas.
Mais, como dissera, uma conversa puxa outra. Voltemos a Didi de Lita. Todos sabemos da sua vocação empresarial herdada do pai. Corre também, a boca miúda, que entre o comércio e uma boa conversa, esta suplantaria àquele. A conversa ao pé de parede, isolada ou em grupo, como se dera durante décadas, era a alma daquele negócio. Certa vez eu brinquei, em programa radiofônico, que Didi havia feito balanço em seu comércio naquele final de ano. Tudo estava como há muito tempo: Receita e Despesa; Entrada, Saída e Estoque. Ao contrário do que muitos pensam, o comércio era apenas um detalhe para Didi, como bon vivant que era. Diz Vicente Simão que Didi estando em meio a uma conversa acalorada e vislumbrando a abordagem de um possível cliente na Comercial Santa Terezinha, mesmo sem imaginar a mercadoria procurada, já se antecipava e sinalizava ao longe:
- Tem não!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O ladrão de Esperança II

Silvestre Batista ficou com uma “pulga na orelha” com a história que dona Judi de Lourdes, sua esposa, lhe contara sobre o barulho no galinheiro suscitando um ladrão de galinhas. Pelo sim, pelo talvez, o dono da casa resolveu investigar até flagrar o elemento em seu malfeito. Passou, então, a dar incertas no quintal certo de que conseguiria desvendar o mistério levantado pela "patroa". Não demora muito e ele dá de cara com o desocupado dentro do seu muro. Invasão de propriedade é crime, segundo Art. 5º inciso XI da Constituição Federal. A casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial.
Os perus de Silvestre
Por este prisma Silvestre estava coberto de razão, o meliante carecia ser descoberto e banido da sua propriedade. Um susto era o que almejava, iria também se divertir com a situação. Ali não havia nada de valor para que alguém se ocupasse em pular muro, fazer balbúrdia e, ainda, levar algumas de suas aves. Teria que proteger seu galinheiro, como pedira Judi, dias atrás. E se encontrasse mesmo o tal ladrão, como reagiria sabendo que viera com propósito firme de roubar.
Silvestre nem imaginava o que veria, naquela tarde ensolarada. Como de costume abriu o portão, com muito cuidado para não provocar nenhum ruído. Com passos lentos, sorrateiro estava ali, diante do dito cujo. Narrava Silvestre que o indivíduo, portando um saquinho de milho, se aproximava de uma perua que se encontrava à engorda para o Natal. O cabra não era assim tão “desasnado”, contava Silvestre, com seu sorriso longo, ao lembrar do caso. Ele jogava uns grãozinhos de milho e esperava a perua bicá-los. Quando a perua bicava, ele se aproximava tentando pegá-la. Ela, então, dava um salto solto para trás e, impaciente, ele jogava mais grãos. Essa peleja levou alguns minutos até que se deu a interferência do dono da casa.
A tentativa de roubo acabou ali. Ao ouvir um conselho de Silvestre Batista o sujeito disparou em direção ao muro da Maternidade São Francisco de Assis, tentando se agarrar a uma fileira de tijolos que se desprendeu e caiu junto com ele. Rápido se recompôs e, noutra tentativa, saltou para o quintal vizinho e desapareceu. O episódio me foi contado pelo próprio Silvestre e, ao lhe perguntar o que dissera ao malandro frustrado, me respondeu que só o advertira para que se preparasse melhor:
- Você vai ter que treinar muito pra roubar essa perua, seu cabra!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O ladrão de Esperança

O assunto ora abordado já virou cordel em braile, numa série de doze, publicados pelo Vate Marco Di Aurélio. Contada em verso a história toma contornos humorísticos enriquecidos pelas rimas tão bem exploradas por aquele poeta “pernaibano”. A história veio à tona a partir de uma provocação minha em almoço oferecido a Marco e sua consorte Roseli, mulher de traços leves e fino trato. Também quisera, aturar as aventuras cordelísticas-cinematográficas-ambulantistas de um Di Aurélio, tinha que ser aparentada de Jó: Roseli é toda paciência, assim como fora também dona Judi, minha sogra.
No casarão de Silvestre – já faz tempo – quando nada acontece é porque algo está acontecendo! Dona Judi perdera a paciência resolvendo contar a Silvestre o que já não era mais cisma. Havia sondado, checado alguém mexendo no galinheiro. Por que não contar? Abriu o jogo detalhando tim-tim por tim-tim o reboliço no quintal:
- Silvestre, tais ouvindo?
- Ouvindo o quê, Judi?
- Um barulho muito estranho, lá fora.
- Estranho pra você, não estou ouvindo nada.
- Tá estranho sim. Eu ouço daqui.
- Bom! Se tem barulho e você sabe o que é, pode dizer.
- Mas se eu disser, você fica calmo?
- Depende do que você me disser né!
- É que vem lá do galinheiro, Silvestre.
Silvestre, matreiramente, apressa dona Judi a dizer o que sabe ou desconfia.
- Judi, diga logo o que quer dizer.
- Tem um ladrão lá no quintal. Pronto!
- Tem um ladrão? Então deixe que dou um jeito!
Tomou posse de um facão que guardava bem ali na cozinha, começou a passar seus gumes, lentamente, numa pedra de amolar. Ele estava usando de suas tiradas humoradas, sem que Judi se desse conta.
- Pra que esse facão, Silvestre?
- Você não disse que tinha um ladrão no quintal?
- Disse! Mas pra quê o facão tão amolado?
- O facão? É pra nada não. Vou só arrancar a cabeça de quem estiver por lá.
Dona Judi, com aquela inocência tão peculiar, correu ao portão e bradou, respeitosamente:
- Meu senhor, corra! Silvestre tem um facão e vai lhe cortar a cabeça!

Amigo, me fale de Deus!

Faz dias fui convidado a falar sobre Deus. Ao contrário do que muitos pensam, empreitada difícil de escritor, sempre com a conspiração de uma amiga. Então falarei sobre Ele contando um sonho que beirava o real quando estava a caminho de São Saruê a convite do Vate Manoel Camilo, a quem tomo emprestado duas estrofes: “Iniciei a viagem / as quatro da madrugada / tomei o carro da brisa / passei pela alvorada / junto do quebrar da barra / eu vi a aurora abismada. / Pela aragem matutina / eu avistei bem defronte / a irmã da linda aurora / que se banhava na fonte / já o sol vinha espargindo / no além do horizonte”.
Há entre vocês alguém que imaginará ter ouvido tal história, mas qualquer coincidência é mera semelhança. Senti um barulho estranho, o mundo parou, percebi a pane e fiquei extasiado. Nem pude contemplar a beleza que havia naquelas paisagens. Passado algum tempo me dei conta de que não seguiria viagem, mesmo tão próximo do meu destino. Já havia passado “lá onde é ali mesmo”, via ao longe um sinal do Asteróide b612: São Saruê estava a uns passos. Apressei-me em consertar o automóvel, não tão móvel nem tão auto, naqueles instantes, quando me apareceu a figura de uma criança que mais se assemelhava uma princesa! Clara como a luz do Sol, ela me dirigia um pedido:
- Conte-me uma história!
Sei que vocês, mais do que nunca, têm a certeza da desconfiança, imaginando um conto parecido. Eu trato de um sonho, e como os sonhos não seguem roteiros, sigo contando o meu. Então respondi negativamente:
- É que eu não sei contar histórias!
- Não é difícil contar histórias. Mas, se não sabe, fale-me de Deus!
- Estou apressado, tenho que seguir viagem e, depois, não lembro nenhuma história que fale de Deus.
- Os homens vivem sempre com pressa, vêm a vida de um modo tão vulgar...
Interrompi o diálogo porque me sentia comprometido com o discurso daquele ser tão meigo e tão sutil, mas com simplicidade e muitos signos nas palavras.
- Você me desculpe, mas preciso consertar essa pane e seguir viagem. Tenho muita coisa a conhecer e desfrutar...
- Os homens vêm muitas imagens, mas não dão conta de contemplá-las, não têm tempo de ler seus significados. Eles têm muito de tudo, mas nada do que têm os bastam. Os homens vivem de contas, contas, contas...
- É que a vida é muito dura, a gente trabalha e conta pra sobreviver...
- Pois Deus nem precisa contar, os homens podiam aprender com Ele!
- Você me pede pra contar histórias, depois diz que os homens vivem de contar e, agora, me diz que Deus não sabe de contas!
- É tudo muito simples. Os homens fazem de conta e Ele nem contar precisa. Deus só sabe contar até um...
- Deus... Até um! Agora me vem você com essa história...
- Sim! Veja ao redor, entre as árvores quantas existem semelhantes. Seus troncos, galhos e folhas. Você pode encontrá-las bem parecidas, nunca semelhantes.
- Ah, estou compreendendo...
- Procure no mundo um Carlos Almeida semelhante a você e não encontrará. Mesmo se houvesse um seu irmão gêmeo, jamais seriam idênticos. Entendeu?!
- Entendi: Deus só sabe contar até um!
Do nada meu automóvel resolveu funcionar. Bem rápido me despedi daquela clara e bela princesa, sem antes ouvir outro pedido e já me tratando de amigo:
- Amigo, por favor, me conte uma história!

À minha amiguinha Clara

Cá estou de volta à labuta da pena. Pena, que pena! Não mais existe e este labutar se dá com uma vastidão de maquinarias e invenções, as mais diversas, para se cumprir tarefa de escritor. Nunca é demais lembrá-los que fui alçado ao título honroso de escritor pela imaginação de Clara, aquela amiga de “lá onde é ali mesmo”, nas proximidades do Asteroide b612 de Exupéry. É dura a vida de escritor, em apenas uma semana descobri algo tão óbvio. Tivesse eu a inventividade imaginativa de Hans Christian Andersen minha vida seria muito mais fácil. Mas aqui e acolá viajo na imaginação e me vejo escrevendo coisas tão belas quanto os contos seus. Imagino-me até um escritor como o dileto amigo José Leite Guerra, sobre quem ainda devo tratar em meus aqui neste espaço.


Peço-lhes o obséquio das desculpas, me imagino lidando com crianças, não é fácil lidar com adultos. Uma vez mais incorro no erro de pensar que estes não carecem de uma mínima explicação sobre o assunto aqui discorrido. Então os informo sobre este célebre escritor, nascido em Odense, no dia 2 de abril de 1805, na Dinamarca.
Andersen teve uma infância pobre, seu pai era um instruído sapateiro e sua mãe, uma simples lavadeira. O teatrinho de fantoches presenteado por seu pai trouxe ao mundo o mais importante escritor de histórias infantis que se tem notícia, com todo respeito e carinho ao nosso Monteiro Lobato que, certamente, nele se tenha inspirado.
Viajo no tempo, fecho os olhos, ouço a voz, vejo os gestos de dona Do Carmo, minha mãe, contando para mim e meus irmãozinhos histórias dO Patinho Feio, O Soldadinho de Chumbo, A Princesa e a Ervilha, A Roupa Nova do Rei... Quem quiser que conte outra!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

As botas de Bonifácio

Nova Iorque aguarda a maior tempestade de neve já vista. A nevasca começou nesta manhã, mas a a expectativa é que se agravasse à tarde e na madrugada de segunda para terça-feira. Os meteorologistas mais pessimistas preveem até 90 centímetros de neve, um recorde para a metrópole. Na costa nordeste dos Estados Unidos da América (EUA) essa nevasca já provocou o cancelamento de milhares de voos. Prevenções excepcionais já foram tomadas para a chegada da tempestade. A nevasca é um fenômeno meteorológico cujo início se dá com as nuvens em temperatura inferior a 0°C, onde o vapor de água se condensa e forma cristais de gelo.
A temperatura baixa exige roupas específicas, lareiras e um aparato de coisas que minimizem a sensação térmica do clima frio. O uso de botas é muito comum nesses eventos, servem também como adorno em clima mais ameno, a exemplo do clima tropical. Até mesmo por essas bandas de cá, onde os termômetros não descem além dos 20 graus, na maioria das cidades nordestinas. Sou testemunho do uso desse apetrecho por muita gente à minha volta. Bonifácio Chuá-chuá é um dos usuários de botinas seja em clima quente, seja em clima frio. Um caso, envolvendo nosso personagem e as botinas, se passou sob minhas retinas.
Toscanini, filho mais novo de Silvestre Batista e sobrinho de Bonifácio, trouxera presentes para parentes e amigos, naquele final de ano. Dentre tantos havia uma bota italiana, bela de gastar os olhos. Beto de Zé Leite e Heleodório Honorato (Dóro) se encantaram com aquele par de botinas. Fariam o “par ou ímpar” para ver quem seria o felizardo. Já ensaiavam a disputa quando aparece Chuá-chuá, se inteira da disputa, interfere e argumenta:
- Pera aí, rapazes! Eu sou o tio de Toscanini, tenho a preferência...
- Tá bom, tio. Calce!
- Oxi, deu certinho no meu pé. A bota é minha!
Bonifácio de pronto pós as botinas debaixo do braço e nem fez questão de levar a caixa. Na manhã seguinte, todos reunidos na sala de Silvestre, entra Chuá-chuá, chamando a atenção de todos. Aquelas botas italianas traziam um pé cortado no bico para deixar livre os dedos de Bonifácio. Perguntado sobre o porquê daquela proeza, ele explicou:
- Calcei com os dedos dobrados, deu certinho...
- E por que cometeu essa aberração, homem de Deus?!
- A bicha apertou em um pé. Aí tive que aparar o bico!

domingo, 25 de janeiro de 2015

Esquecido

“Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim. Um grande amor não se acaba assim, feito espumas ao vento. Não é coisa de momento, raiva passageira, mania que dá e passa feito brincadeira: O amor deixa marcas que não dá pra apagar. Sei que errei e estou aqui pra te pedir perdão, cabeça doida, coração na mão, desejo pegando fogo. Sem saber direito aonde ir e o que fazer, eu não encontro uma palavra só pra te dizer. Mas se eu fosse você, amor, eu voltava pra mim de novo. E de uma coisa fique certa, amor, a porta vai estar sempre aberta, amor. O meu olhar vai dá uma festa, amor, na hora que você voltar”. 
Minhas sestas, aos sábados e domingos, se dão aqui em uma das velhas redes. Nesse cochilo me acompanham grandes autores, seja em qualquer forma literária ou na música, uma boa música. Hoje, por exemplo, fui balançado pela nata da música popular brasileira. Iniciei meu embalo com a prodigalidade nordestina de Paulo Diniz, passando por João Gilberto e de outro Gilberto, o Gil. Aí vieram Caetano, Belchior, Betânia, as Flávias Wenceslau e Bitencourt. As letras, linhas melódicas e interpretações me fazem flutuar nesse balanço enredado. Uma reflexão me ocorre outra vez mais dentre milhares. É sobre os compositores, muitas vezes inéditos ou sem o devido reconhecimento. Caso emblemático de Accioly Neto, a quem chamava Papagaio, autor de “Espuma ao vento”, tornada célebre na voz de Raimundo Fagner. 
Essa dívida com os autores de música brasileira é imoral, não há uma política de obrigatoriedade – e haja tempo –, fazendo com que as diversas mídias publiquem a obra com o crédito da autoria, diminuindo um débito histórico com quem realmente cria, letras, melodias e sonhos. Não que os intérpretes não devam ser exaltados, ao contrário do que muitos pensam, mas que se faça justiça aos artistas criadores, a exemplo de Accioly Neto que, em um jantar na residência de Mael Malazarte, um amigo em comum, desabafara seu desencantamento com essa triste realidade. Accioly, hoje, jaz esquecido!

Mata...

Convidados pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) trabalhamos ano e meio na “Conscientização Turística”, um dos frutos do Pacto de Cooperação da Zona da Mata, levando uma série de atividades a 21 municípios daquela região. Junto aos técnicos do Sebrae estavam Jerimum e Xique-xique com a irreverência humorística e o cordel na tentativa de atrair a atenção de gestores e comunidades para uma melhor formação no atendimento ao turista que busca as belezas naturais do litoral nordestino.
Então chegava a hora e vez de visitarmos Mataraca, um ponto de turismo regional, município situado na microregião do Litoral Norte paraibano, na divisa com o estado do Rio Grande do Norte. O nome tem origem no tupi-guarani. Matará é uma espécie de ave; aca significa bico, ponta. Belas paisagens compõem suas praias tropicais de águas límpidas. Mas nós precisávamos chegar até o hotel onde reservas já haviam em nosso nome. Naquele utilitário íamos eu, Emerson Tomaz e Carlos Santos, seu proprietário e cinegrafista também contratado pelo Sebrae.
Eu, deitado em meio a colchonetes que protegiam equipamentos de filmagens e outras tralhas, já começava a me inquietar com a demora da viagem. Pelas informações e o tempo decorrido já deveríamos estar na sede do município, quiçá no hotel à beira-mar, em Barra de Camaratuba. Resolvi indagar dos colegas sobre aquele percurso e ouvi, surpreso, que estávamos perdidos, já cegando no Rio Grande do Norte. Sugeri que voltássemos ou que procurássemos informação. Ah! É importante revelar que já passavam das 22 horas, num lugar a esmo, onde não se via sequer luz de pirilampo. Um escuro que dava medo. Foi então que apareceu um ponto de luz, aumentamos a velocidade e percebemos se tratar de uma motocicleta conduzindo duas pessoas. Falei mais alto para abafar o ruído do motor:
- Pergunta, aí, se Mataraca já ficou pra traz?
Emparelhamos o automóvel à motocicleta e Emerson, da porta do carona, desce o vidro e, ao pé da letra, pergunta em voz pra lá de alta:
- Mata...
Ao contrário do que muitos pensam, não houve tempo de completar a frase. Aquela luzinha foi sumindo à nossa frente se assemelhando a algo extraterrestre. Sumiu, escafedeu-se!

sábado, 24 de janeiro de 2015

“Paguem só a água”

Já contei sobre Seu Basto. Disse que era homem intolerante e não levava desaforo pra casa, embora espirituoso. Disse, também, não tinha “papas na língua”. Um pedido esdrúxulo era o mote para sua “ira”. Certamente Seu Basto se utilizava desses seus trejeitos para atrair cliente e fidelizar os já conquistados. A toalha “fubenta” que trazia no ombro era também algo que compunha aquele tipo exótico no trato cotidiano. “Grosso que só prego de embrulhar prego”, é como o descreve Vicente Simão, de quem me sirvo para saber um pouco mais sobre Esperança, terra que me adotou a mais de duas décadas.
Emerson Tomaz, meu companheiro de trabalho cultural e Fabiano, aparentado do jornalista Evaldo Brasil, são os personagens do episódio que passo a descrever. Claro que o fato se deu no bar de Seu Basto, após uma sessão do Cine São José, atrozmente demolido para construção do prédio que hoje serve ao Banco do Brasil, como se não houvera outro espaço que não aquele de tanta memória.
- Seu Basto, dá pra trazer duas cocadas?
- Nem preciso dar, tomem as cocadas!
Contam Emerson e Fabiano que saíram esfomeados da sessão de cinema e aquelas cocadas eram um achado de tão gostosas. De tão grandes bastaram para atenuar a fome que ambos sentiam. A sede, aqui não comentada, era ainda maior que a fome. Daí os constantes pedidos que já incomodavam o dono do bar:
- Seu Basto, traga dois copos d’água!
- Vocês querem mineral?
- Não, traga da torneira, mesmo!
E assim se seguiram os pedidos de água após as meras duas cocadas:
- Seu Basto, traga mais dois copos d’água!
- Levo, agora, mineral?
- Não, traga da torneira, mesmo!
Aquela conversa mole ao pé do balcão se seguia ao que Seu Basto interfere, já sem paciência:
- E aí! Vocês querem mais alguma coisa?
- Traga mais dois copos d’água, Seu Basto!
- Da torneira, né?
- Sim! Quanto pago pelas cocadas, Seu Basto?
Perguntou um deles, ao que Seu Basto ironizou:
- As cocadas?
- Sim!
- Precisa pagar, não. Paguem só a água!

“Matei uma galinha, não um tamborete”

Seu Basto era aquele dono de bar esperto e espirituoso, não perdia uma piada e nem levava desaforo pra casa, respondia “em cima da bucha”. E não viessem com pedido esdrúxulo, ele não tinha “papas na língua”. Este era um traço daquele dono de bar que cativava a clientela. Em comum com Seu Paizinho, o bodegueiro do conto anterior, havia um gato em cima do balcão. Aquilo não trazia incômodo a ele nem aos seus fiéis clientes. Uma toalha sempre ao ombro era parte de sua indumentária. O jeito intolerante, ao contrario do que muitos pensam, era só figuração, estratégia de bem viver e conquistar a clientela.
Num bar os assuntos são variados. Conversa-se de tudo. De política a religião, mas futebol e vida alheia são assuntos imbatíveis. Há, ainda, os ébrios com suas conversas fantasiosas de muita proeza, muita riqueza e, às vezes, puras traições. O dono de bar é um tanto psicólogo, advogado e até juiz, só não cabendo ser padre ou pastor, pois as drogas lícitas que serve o tornam incompatível com a religiosidade. O que ele faz, religiosamente bem, é o tratamento dispensado à sua clientela, assídua e fiel, em sua maioria, a exemplo de Seu Basto.
Era arredio a conversa mole, fosse direto no pedido e ele prontamente atendia. Que viessem sem arrodeio, aquilo não era de sua tolerância. Ocorre, porém, que alguns o provocavam para sentir sua reação, como se sairia das “enroscadas” propositais. Certa feita, por exemplo, lhe chega o pedido de uma mesa. Dois clientes haviam pedido um pé de galinha, cada, para saborear com um gole de aguardente. Seu Basto atende de pronto. Serve-lhes a aguardente, os pés de galinha e volta ao balcão. Não demora muito e mais um pedido vem da mesma mesa. Os clientes, talvez por provocação, repetiam os pés de galinha e a cachaça. Uma dose e um pé, cada um deles.
Seu Basto, com “dois quentes e um fervendo”, termo há muito esquecido, saí do balcão, vai à mesa e despeja:
- Vocês desejam o quê, mesmo?
- Dois pés de galinha e duas doses de aguardente, Seu Basto!
- Tão pensando o quê, dois estrupícios? Matei uma galinha, não um tamborete!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Farinha de seu Paizinho

A bodega de Seu Paizinho rendeu muitas histórias. Umas ocorridas, outras inventadas e atribuídas ao proprietário. Seu Paizinho era homem desprendido de coisas materiais, sua bodega lhe servira como espaço de labuta, o lucro advindo da lida de bodegueiro era apenas um detalhe. Isso se é que aquela bodega lhe trouxe algum lucro, principalmente quando se tratava da venda em caderneta aos amigos, parentes e aderentes. A bodega e o bodegueiro exige um casamento perfeito, uma se assemelha ao outro. Eis aí a alma nordestina revestida de nuances culturais e belos contornos socioeconômicos de tempos não muito distantes.
Uma dessas histórias é contada por Vicente Simão, figura exponencial quando se trata da vida corriqueira, cotidiana esperancense. Conta ele que certa feita ali chega um cliente dos mais assíduos, puxa prosa, encosta-se ao balcão e, do jeito que comumente agia, leva alguns punhados de farinha à boca, se delicia. E haja prosa. Aquilo já se incorporara como um ritual nas visitas à bodega de Seu Paizinho e o cliente aqui anotado por Simão é Seu Titi, homem também de muita respeitabilidade naquela freguesia. E assim se sucediam aquelas visitas e as boas prosas.
Encostado ao balcão de Seu paizinho, mais uma vez, está o nosso personagem. Seu Titi puxa conversa e com esmero sacode punhados de farinhas acompanhados de uns “tacos” de carne de charque servidos pelo amigo Paizinho. A praxes entre bodegueiro e seus clientes era de bem servir e agradecer. Mas Seu Titi nenhum comentário havia feito com aqueles punhados e a iguaria servida. Na falta do comentário elogioso de sempre o Seu Paizinho estranha e indaga:
- Oxente, Titi, o que aconteceu! Não gostasse da charque?
- Verdade seja dita. A charque, como sempre, tava gostosa, mas essa farinha tá bem diferente. Tem umas bolas estranhas, Paizinho!
E Seu paizinho, lamentando, comenta:
- Ah, só pode ser isso...
- Isso o que, homem de Deus! O que tem a farinha? 
- Meu gato deu pra dormir em cima do saco: Pense!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Virou fumaça

Havia o “Música para Todos” e nós, pela proximidade com o Edifício Tereza Cristina, margeando o Capibaribe, éramos assíduos frequentadores. Aquele projeto dava oportunidade de se conhecer a música erudita através da Orquestra Sinfônica do Recife com a pompa e circunstância do Teatro Santa Isabel, palco das apresentações. Tornamo-nos (quase) íntimos do maestro Eleazar de Carvalho, seu regente à época. Eleazar inovou o repertório da orquestra com célebres peças musicais como Zaratustra e Don Juan (Strauss), além de obras de StravinskiDebussy e Ravel, cujo legado foi abraçado pelo maestro Eugene Egan, seu assistente. 
Numa daquelas apresentações, traído pela memória, tive que abandonar o concerto, saindo às pressas por entre as filas de cadeiras e a plateia que lotava o Santa Isabel. No meio do “Coro dos escravos hebreus”, fragmento de Nabuco, ópera de Giuseppe Verdi, lembrei-me de algo que não devera esquecer. Havia deixado uma panela comum com macaxeiras ao fogo, enquanto tomava um rápido banho, antes da saída ao teatro. Por mera precaução não quis utilizar panela de pressão, na possibilidade do esquecimento. O fato é que esqueci, o “Música para Todos” me tomara toda a atenção, naquela tarde, pelas obras anunciadas.
Saí desembestado, como diria minha mãe, pela Rua do Sol, parei próximo à ponte Duarte Coelho, olhei para as imediações do Tereza Cristina, buscando algum sinal de fumaça. Nada pude perceber dali, mas ao avançar pelas Ruas da Aurora e Clube Náutico Capibaribe, esquina do Cine São Luiz, vi o estrago que fizera. No quinto andar não dava para divulgar as janelas da nossa quitinete, era fumaça só. O síndico já estava a postos, iniciaria o arrombamento na tentativa de evitar maior propagação do fogo que não se dera. Ao contrário do que muitos pensam, onde há fumaça, necessariamente, não há fogo. A panela com macaxeiras virou cinzas e, minha ópera, fumaça!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Só faltou a fita II

Fomos à Brasília para o lançamento de um vídeo sobre Macambira, Jerimum e Xiquexique. Antes tivemos uma matéria de capa do Caderno Cultural do CORREIO BRASILIENSE, intitulada “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”, enfocando nossa inserção cultural na região da Borborema. Daí o encontro com o físico Bautista Vidal, relatado na última postagem deste Blog.
Quero descer a detalhes que talvez fujam a atenção do leitor. O Parque Way, onde residia o Dr. José Walter Bautista Vidal é o setor de mansões, uma das mais nobres áreas residenciais do Distrito Federal, talvez mais valorizada que o setor de embaixadas. E aquele homem que passara pelos mais altos escalões federais, com enorme respeitabilidade mundial, não esboçou preocupação em se resguardar. Bautista Vidal, pasmem, teve apenas três contatos telefônicos comigo, nunca me vira antes, sequer. Mesmo assim nos convidou a entrar em sua mansão, sozinho e só que se encontrava, naquela tarde da visita.
Aquele gesto para mim foi, sobretudo, de desprendimento. Claro que sua paixão pela temática energética da qual iríamos tratar é posta nessa conta. Mas quem era eu para “encher os olhos” daquele engenheiro físico, uma vez que Emerson Tomaz e Fernando Rocha não demonstravam interesse, à época, pelo assunto abordado. Um misto de amor pela causa da energia renovável; sua atenção a nós visitantes; a satisfação em saber que outras mentes demonstravam que sua luta não era inglória, podem explicar. Ao final daquela tarde chegam a esposa e uma filha do nosso anfitrião. É servida a ceia regada a conversas amenas e, logo após, mais uma grata surpresa e a confirmação do seu desprendimento. O Dr. José Walter Bautista Vidal nos convida a por nossas malas em seu automóvel, aciona o veículo e nos conduz – ele mesmo, sem seu motorista – ao Aeroporto Internacional de Brasília, ajudando-nos com as malas no desembarque.
Ele, mesmo com debilidade locomotiva em uma das pernas, comete aquele ato que nos marcou a todos. Só para ratificar, tudo saiu a contento, menos a fita na filmadora!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Só faltou a fita I

Dado às tecnologias voltadas a energias renováveis, encontrei no Instituto do Sol uma saída para a problemática brasileira e mundial. Afinal temos um planeta minguando pela exploração desenfreada de matrizes energéticas há muito ultrapassadas. Aquele Instituto fora criado pelo Dr. José Walter Bautista Vidal, engenheiro e físico brasileiro, ex-professor da Universidade de Brasília, principal mentor do Pro-Álcool, homem com respeitabilidade mundial. O ano era 2003, Brasília o grande cenário, onde eu, Fernando Rocha e Emerson Tomaz encontramos o Dr. Bautista. Havia tentado um contato telefônico e fui atendido por sua filha Alyne que, ao me ouvir atentamente, agradeceu o contato informando que seu pai, mais tarde, retornaria aquela ligação. Claro que duvidei, tratava-se de um dos mais famosos físicos do planeta, não perderia tempo em retornar a ligação. Alyne, para mim, estava sendo apenas cortês.
À noite, ainda cedo, toca o telefone residencial. Atendo e uma voz grave se apresenta: “Aqui é Bautista Vidal. Senhor, Carlos, por favor!”. Tremeu-me as pernas por instantes. Eu estava com o idealizador do Instituto do Sol, o Bautista que tanto admirava. A conversa fluiu e fiz ver a ele o gosto e informação sobre a temática energética. Falei de uma viagem que se avizinhava e dele ouvi a sugestão de que, em chegando a Brasília, entrasse em contato com o mesmo, como de fato ocorreu. Sugeriu, ainda, que no dia do nosso retorno passássemos a tarde em sua companhia para uma conversa ao que sugeri uma entrevista também concedida.
Chegamos ao Parque Way e nos dirigimos ao endereço repassado por telefone. Era uma mansão, parecia cena de filme europeu, naqueles campos de golfe, campo gramado, belo arvoredo. O Dr. Bautista estava só, naquele momento, e nos autorizou a entrar com o táxi que nos conduzira. “Dispensem o táxi que pedirei ao meu motorista que os deixe no aeroporto”, disse. Mostrou-nos seu parque gráfico, instalado em casa, conversamos amenidades e, enfim, concedeu-nos a entrevista de nossas vidas.
Um pequeno detalhe nos traiu e perdemos hora e meia de audiovisual. Tudo saiu a contento, só faltou a fita na filmadora!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Insensatez

Deito-me à rede em meio a tanto barulho vindo do exterior. Aqui, no alpendre, curto um silêncio de monastério. Aquele barulho é diluído pelo agitar das árvores, o sibilar do vento às folhas e, em meio a essa maravilha, as lavras e vozes de Vinícius e Tom “Insensatez”. Gosto de ouvir aleatoriamente o que me dá prazer e me isola da mesmice cotidiana. O que leio e escuto, filtro nesse bom balanço enredado. E por aqui, pasmem, desfilam Chico “Roda-viva”, Tim “Azul da cor do mar”, Lulu “Como uma onda no mar”, Dominguinhos “Fulô de araçá” e essas meninas encantadoras com suas vozes aveludadas, a começar com Elba “Vem ficar comigo”, Simone “Um novo tempo”, Zizi Possi “Nunca”, Betânia “Depois de ter você” e um cordão de pérolas culminando com a grata revelação dos últimos tempos Flávia Bittencourt “Mar de Rosas”, numa interpretação ímpar ao que considero trivial.
Assim se dilui toda a insensatez desse mundo velho, onde perdura o desamor, a voracidade de um modelo excludente e deveras conturbado. É na música e na leitura que consigo “desligar” os botões do mundo lá de fora e vivenciar o meu mundinho alpendrado, ainda mais agora quando pardais procuram seus ninhos em copas de árvores ao meu redor. Nada há de me incomodar por longos instantes me valendo eternidades, sem o contrassenso ao mundo imputado. Ao contrário do que muitos pensam, é com letras e sons que nutro meus ouvidos e busco, nessa “promiscuidade musical e literária” - como diria minha amiga Silvia Araújo, a Silvinha - que fujo da realidade sem que a deixe de enfrentar cotidianamente.
À crueldade do mundo e ao contrassenso reinante, aconselho que clamem aos tons, aos tins e bens, como já ensinara Caetano “...Ou então cada paisano e cada capataz / Com sua burrice fará jorrar sangue demais / Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais / Será que apenas os hermetismos pascoais / Os toms, os miltons, seus sons e seus dons geniais / Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais”.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Sorrateiro

Amanhecia o dia e algo de estranho ocorrera. Passaram-se alguns dias para descobrirmos que animal produzia aquela sujeira, o lixo acondicionado e a ser recolhido pelo caminhão da coleta estava espalhado pelo quintal, o que nos intrigava, feito sorrateiramente. Imaginei que fosse um timbu, já se serviu de nossas galinhas, em épocas passadas. Mas por onde entraria se não há uma brecha, sequer, separando os quintais e nossa casa. Afinal que bicho era aquele?! Era um gato! Deu as caras quando da visita de uns amigos recifenses, na primeira semana deste janeiro. Rolava muita música, vinho e, claro, tira-gostos que, certamente, chamaram sua atenção. E ele chegou por ali, ainda sorrateiro, não mais em busca das sacolas plásticas e seus conteúdos, mas miava pedindo comida, atraído que fora pelo cheiro.
Eu, confesso, sou arredio a qualquer animal que me deixe propenso ao apego. No passado, ainda criança, convivi com Tango, mais tarde vieram Rex, Langoni, Frank, Sinatra e Bilú, todos da família canina. Luma, Gregor e Mimi foram os felinos também de época remota. Xande, o último felino, aceitamos de presente com muita relutância de seu Silvestre. Mari, hoje irmã Mariângela, convenceu o avô a criar o gatinho cheio do dengo de toda a casa até que foi “resgatado” por sua mãe, sumindo pelos telhados da Maternidade São Francisco de Assis. Todos sentimos, choramos o sumiço de Xande, o apego é inevitável.
Agora é a vez de um gato branco com pintas pretas nas narinas, que a princípio voltava só à hora das refeições e depois sumia. Hoje já o vemos na espreita do abrir a porta. Miau, miau, miau! Enroscasse em nossas pernas pedindo um carinho só retribuído na água e na comida. Até já se comprou recipientes e o leite especialmente para ele, mas sem o dengo que nos cobra. Sorrateiro vai ficando, ficando, ficando... Já penso até em batizá-lo: Caco!

sábado, 17 de janeiro de 2015

Pânico no cinema II

Mais uma cortesia me chega às mãos pouco tempo depois daquele pânico no Cine Moderno, agora noutra avant première, no Cine AIP, pertencente à Associação da Imprensa de Pernambuco. Inferno na Torre seria o filme a ser exibido e, avaliando o episódio anterior com o filme Terremoto, criei coragem e fui assistir àquela película também badalada nas rodas de amigos. É preciso que eu descreva o cenário para melhor entendimento do leitor. O Cine AIP, conforme ilustração, situa-se no décimo primeiro andar do Edifício Igarassu, uma das primeiras edificações verticais do Recife.
Ocorre que o episódio do Moderno era passado e, como diz o ditado, “o passado não move moinho”. Fui, tomei o elevador, cheguei ao Cine AIP, sentei-me no salão à espera de alguém conhecido para me servir de companhia. Aquilo não era medo, mas uma espécie de segurança. Talvez me sentisse seguro caso houvesse outro surto medonho. “Quem espera sempre alcança” é outro adágio popular que, dessa vez, não se cumpriu. Resolvi ir sozinho à sala de projeção, afinal. Com o Canal 100 prestes a encerrar, acomodei-me numa poltrona do corredor, bem próxima à saída. Mas não por medo, uma certa precaução, apenas. Inferno na Torre, vale aqui o registro, é a história do mais alto prédio do mundo que, na noite de inauguração, arde em chamas, aprisionando os convidados nos andares mais altos, dando início a uma sequência de atos heróicos e terríveis perdas humanas com seus convidados pegos de surpresa em meio à estrutura metálica, transformada em um verdadeiro inferno.
Eu, de onde estava, assistindo aquele prédio colossal em chamas, não tive tempo de raciocinar sobre o que era real e o que era ficção. Fui saindo à francesa, me segurando em corrimões, me encostado às paredes até chegar ao elevador. Senti-me aliviado, ainda mais, quando ouvi o ranger de porta abrindo e o aviso do conhecido ascensorista: Térreo, Almeida! Abri os olhos e sorri pisando em terra firme.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Pânico no cinema I

Fui ao lançamento do filme Terremoto, no extinto Cine Moderno, localizado à Praça Joaquim Nabuco. O cinema teve que fazer algumas adaptações para suportar o som especial daquela exibição. Empolgado com a novidade sentei-me na primeira fila, queria sentir de perto a emoção tão propalada nos meios de comunicação. Eu era, dentre milhares de recifenses, um felizardo pela cortesia recebida. Estava, de fato, naquela avant première.
Enfim é chegado o momento, apagam-se as luzes, abrem-se as cortinas. O Canal 100 era, por assim dizer, o prato de entrada nas sessões cinematográficas brasis afora. Bons tempos aqueles quando ainda haviam os cinemas com seu público, pipoqueiros, sorveteiros, trocas de gibis e fantasias, a fábrica de sonho das películas. Inicia-se o filme, ratifico de cara o som especial tão anunciado. Tremia tudo! Paredes, piso, cadeiras... Eu tremia por dentro com as cenas que lembravam um episódio ainda muito recente na capital pernambucana. Um boato criminoso, espalhado por uma emissora de rádio local, paralisou o comércio de Recife com o “rompimento” da barragem de Tapacurá. Lojas fechavam suas portas, funcionários e clientes abandonavam seu interiores, ônibus desembarcavam passageiros enquanto outros tantos neles embarcavam, pessoas se encontravam como formigas e, numa curta conversação, rápido se dispersavam. O pânico tomara conta da cidade.
Naquela sessão o som e a tremedeira aumentaram na cena do rompimento de uma barragem. Aquilo deixou de ser uma película, o filme que passava em minha mente era real. Lembrei da cena que vira do terceiro andar do prédio do Diário de Pernambuco, naquele dia de pânico. Saí cambaleando em meio aos cinéfilos que lotavam o Moderno. O pânico estava ali: Tapacurá, para mim, estava se rompendo!

“Gosto dessa promiscuidade...”

Ao contrário do que muitos pensam, muitos pensam ao contrário. Daí passo logo a explicar o título para dirimir possíveis dúvidas e não cair em dívida. Encontro-me com Silvia Araújo, aquela minha amiga de primeira hora, linda em casca e essência. Dou-lhe, então, o meu abraço de “meia hora” como de costume, com a cumplicidade de Evaldo Brasil que a convida para o primeiro Sarau 2015. Silvia anuncia sua participação com uma leitura do português José Saramago de quem fala com brilho nos olhos. Olho pra ela com olhar meio reprovador e a lembro da paixão desenfreada por Eduardo Galeano, segundo me confidenciara à bem pouco tempo. Silvia se defende e se sai com uma pérola, ao meu ouvido: “Estou chifrando Galeano com Saramago. Gosto dessa promiscuidade literária”.
Atire a primeira pedra aquele que nunca cometeu o mesmo “pecado”. Eu, por mim, não atiraria. De férias das leituras filosóficas reservo-me o direito a essas promiscuidades. Além de visita a blogs, poucos deles, releio em minha rede NUVENS VERMELHAS do amigo Roberto Numeriano, escrito em memória de Luís Carlos Prestes e Gregório Bezerra, leitura densa de 612 páginas. Trama de rasgos épicos retratando o Amor e a Revolução, leitura que recomendo e cujo affair é interrompido: 501 Grandes Escritores, chegado por empréstimo pelas mãos de Simone, uma “ensandecida” companheira de trabalho. Como anuncia o subtítulo da obra é “um guia abrangente sobre os gigantes da literatura”.
Quando me foi apresentada aquela “maçaroca de papel” chama a atenção pela capa: uma foto de Fernando Pessoa lhe serve como ilustração. Nada mais convidativo a uma leitura que o Pessoa com sua verve de poeta/escritor e as alcunhas de sua prodigalidade. Assim não há porque Silvia se preocupar nem sussurrar aos ouvidos aquela sua promiscuidade literária. Livre está de que alguém lhe atire pedra. Viva a literatura: a promiscuidade literária está no ar!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Liberdade, Igualdade e Fraternidade

"Jesus Cristo veio ao mundo / pra acabar com as injustiças / quando tinha treze anos / rezou a primeira missa / viveu por aí rodando / e depois de quinze anos / sentou praça na polícia. Jesus nasceu em Belém / conseguiu sair dali / passou por Tramataí / por Guarabira também / nessa viagem de Trem / foi parar no Entroncamento / não encontrando aposento / dormiu na casa do cabo / comeu cuscuz com quiabo / tá no Velho Testamento".
Aqui temos Zé Limeira, “O Poeta do Absurdo”, cujos versos pra lá de extravagantes, hilários e cômicos estão na obra do saudoso paraibano Orlando Tejo. Vê-se logo que o poeta não tinha compromisso com a temporalidade e, ao contrário do que muitos pensam, nunca sofreu consequências drásticas por versar sobre Jesus Cristo, o maior símbolo espiritual do catolicismo, mundo afora. Eu, como admirador de sua obra e sua história, tive oportunidade de declamar esses mesmos versos para uma plateia formada por fiéis, padres e bispos, arrancando risos de todos sem exceção. É que nós somos tolerantes e não vemos aí nenhuma chacota ao cristianismo nem a figura do Cristo.
Não é o caso, por exemplo, do episódio das charges do jornal francês Charlie Hebdo que tratou com escárnio o profeta Maomé, segundo a visão do islamismo. Comungo com a opinião daqueles que veem falta de respeito (no mínimo provocação) às diferenças e, em se tratando de religião, a coisa toma contornos ainda mais sérios. A liberdade de imprensa - da qual não abro mão - não dá margem ao ultraje retratado nas charges polêmicas de 2005 e de agora. Emocionei-me com os franceses saindo às ruas, lotando praças em protesto à intolerância, mas não concebo a ideia de saírem aos milhões em busca de um exemplar que reproduz a provocação e a ira dos sanguinários fundamentalistas. Há um equívoco histórico de um lado, uma matança infame do outro. Até onde vão essas atrocidades? Liberdade, Igualdade e Fraternidade: Será que junto aos jornalistas mortos também enterramos os ideais da Revolução Francesa?!

Tempos de criança

Acabo de ler “O mundo e suas voltas” da colega Ana Débora Mascarenhas, que hoje nos traz uma reflexão intitulada Futebol. Ana traça um rápido perfil da mais nova diversão do Mateus, seu filho adolescente, com o futebol jogado pelas ruas ou quintais. Hoje muito requintado, com acompanhamento profissional e a presença dos pais na torcida pelas proezas dos filhotes. Antigamente não haviam esses aparatos mais chegados a academias de futebol, vivíamos tempos onde este conceito era inimaginável.
Viajo em minha rede em busca da memória futebolística juvenil lá pela década de 60, onde as ruas não asfaltas nem assaltadas nos serviam às brincadeiras variadas e, neste contexto, o futebol se dava à solta. Frequentei alguns quintais chutando bolas de meia, dividindo espaço com galinhas, patos e perus. Na casa de seu Gilberto e dona Bilzinha, nos arrabaldes de Recife, havia um desses quintais e era o de nossa preferência. Ali já havia, além do espaço físico, a aquiescência dos donos da casa. Driblávamos aqueles animais e suas gamelas, fugíamos do encalce de Dick e buck, dois cachorros perdigueiros com suas presas afiadas a nos roubar as bolas de plástico ou borracha até furar algumas delas. Mas isso também fazia parte da nossa diversão, mesmo com a dificuldade de adquiri-las.
Ao contrário do que muitos pensam, criança é criança ontem, hoje e sempre com o mesmo espírito pueril. O que muda, decerto, é a forma do jogo que se dá em campos entapetados de grama, uso de uniformes completos, acompanhamento profissional e a grata participação principalmente das mães, nunca concebida em tempos de outrora quando jogávamos de pés descalços. Pelo menos nada muito comum em nossos tempos de criança, onde minha mãe, por exemplo, só ia ao meu encontro para tirar-me do jogo com cuidado nos acidentes comuns a uma boa pelada juvenil. Para a criança de hoje tal qual a de ontem e de sempre há um jeito de ser feliz!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Uma mão estendida III

Encontrava-me na Pracinha do Diário, denominação oficiosa da Praça da Independência, em meio a um grupo de ex-colegas de trabalho, quando fui abordado por um desconhecido. Fiquei a me perguntar – ao tempo que o atendia – o por quê de ser eu o escolhido em meio ao grupo. Afastei-me um pouco dos colegas para ouvir mais atentamente o pleito que me fizera. Soube, então, que se tratava de alguém oriundo de Lagoa de Itaenga, nas proximidades da cidade de Carpina, região canavieira pernambucana.
Estava desempregado, havia uma semana que procurara emprego em Recife, sentia-se faminto, queria voltar para casa, não tinha dinheiro. Esta foi a situação pormenorizada daquele cidadão, trabalhador que me pedia ajuda. Despedi-me do grupo e, meio desconfiado, o convidei a caminhar em direção à Duque de Caxias com destino ao Cais de Santa Rita, onde minha esposa, gestante à época, me aguardava. Lá cheguei e o apresentei como amigo, mas sem dizer que o levara conosco. Tomamos o ônibus, descemos em Piedade e o rapaz nos acompanhando. Até que chegamos ao apartamento e, só aí, contei a historia. Conosco moravam meu irmão Fernando e minha cunhada Mirtes. Ficaram todos sobressaltados quando informei que iria a uma reunião de condomínio e me demoraria por lá.
Ao moço foi servida comida, roupa e um colchonete para dormida. Na manhã seguinte o levei à rodoviária e o vi embarcar de volta para Lagoa de Itaenga. Uns dez anos mais tarde, num vagão do metrô de Recife, sinto alguém me tocar às costas e olho para me certificar de quem se tratara, sem reconhecer.
- Tá lembrado de mim?
- Desculpe-me, mas não lembro.
- Sou aquele rapaz de Lagoa de Itaenga...
Aí me apresentou à família, narrando o ocorrido em nosso encontro, expressando enorme gratidão.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma mão estendida II

Seu Soares, meu pai, era homem rude, mas coração generoso. Deu-me prova disso em diversas oportunidades, mas um episódio em sua vida nos deixou perplexos e suscitando uma intervenção enérgica de dona Maria do Carmo, minha mãe, em favor de Sebastião, em certa manhã, ao acordarmos com um alarido rua afora. Era Sebastião Leso, um desses seres especiais que a vida coloca junto a nós para crescimento espiritual, “doido” para a maioria dos moradores de Coqueiral, bairro recifense, mas pelo episódio que passarei a contar tenho a impressão de ter muita lucidez.

Na enchente de 1966, com o Tejipió inundando boa parte dos arredores de Recife, tivemos que reconstruir nossa morada. O barraco de madeira dava lugar a uma casa de alvenaria à beira daquele riacho, o Tejipió. Feito o alicerce, levantamos os cômodos que nos abrigariam e, daí por diante, tocaríamos o resto da obra dentro das possibilidades do meu pai, funcionário público da Rede Ferroviária. Então enfileiramos os tijolos, num espaço lateral da casa, aguardando a continuação da alvenaria. Eram tempos difíceis, onde tudo era medido e pesado para que o orçamento cobrisse o mês. Não se tinha as facilidades de hoje com a variedade de material, condições de compra a crédito, mão-de-obra...

É aí que entra nosso personagem, o Sebastião Leso. Notávamos,  a cada manhã, pedacinhos de tijolos juntados em um canto do muro, de forma a denunciar a quebradeira e o cuidado com a não dispersão dos cacos. Naquela manhã do alarido, meu pai o pôs pra correr, ainda muito cedo, flagrando o malfeito e seu benfeitor: Era Sebastião, sem nenhum contrassenso. Ao contrário do que muitos pensam não era por mal que ele quebrara os tijolos. Interrogado no almoço, por minha mãe, confessou:
- Dona Carminha, só queria ajudar seu Soarinho. Eu tava fazendo muito!