quinta-feira, 14 de abril de 2016

CASA GRANDE SEM SALA

Ouvi do filósofo uma reflexão que me fez refleti-la: “Eu estou preocupado! Estou muito preocupado com a onda que tomou este país. Todo mundo com um discurso ético, cheio de probidade e numa verdadeira caça aos corruptos. Isso me preocupa! ”.

Refleti sobre o que dissera meu professor. Penso que sua linha de raciocínio poderia caminhar pelos acostamentos da vida, onde muitos se apressariam em ultrapassar os “tolos” que permanecessem enfileirados, aguardando hora e vez da locomoção. Talvez sua tese aventasse possíveis filas de banco, ônibus, cinema, supermercado... onde essa mesma ética não tivesse espaço. Ou será que o filósofo faz elucubrações imaginando um pai comprando um aparelho auricular para o filho se dar bem no vestibular, deixando para trás um monte de gente nem tanto esperta ou, ainda, comprando uma “consulta, um tratamento médico” num jeitinho de fugir do Imposto de Renda? Uma gorjeta por um documento escuso ou estacionar numa calçada, nem cogitei. Desisti de assim me guiar por ratificar que seriam teses insustentáveis, afinal vivemos um Brasil indefectível, uma gente com predicados irrefutáveis de tão probos.

Não encontrei uma alternativa que me faça elucidar o problema. “Eu estou preocupado! ”, essa frase me corrói o juízo sem que me chegue algo palatável, uma justa explicação. Há aquela famosa lei de Gerson “Eu gosto de tirar proveito em tudo, certo! ”, mas cai por terra posto que não há ninguém, nesses éticos tempos, que ainda faça uso dessa prática ridícula. Imaginar que jovens universitários, libertados da caverna platônica pelo conhecimento, tenham comportamento rude no acesso aos coletivos a eles destinados, acotovelando seus pares ─ sejam meninos ou meninas ─ para galgarem um assento como se fora o último de suas existências, é inimaginável, indubitavelmente. Poderia levantar hipótese sobre aquele papel jogado ao chão, um resto de lanche e pet descartados pela janela do automóvel importado, o avanço do sinal vermelho, aquele aperto de mão com as marcas grudadas de meleca e, até, a torneira aberta e esquecida a esmo.

Teses tão insustentáveis me tiram o gosto pela investigação. Não me arvoro a decifrar tal pensamento. Meu professor, certamente, estava brincando ou se referindo a um Brasil dos tempos da Casa Grande Sem Sala, onde nem mesmo a senzala existiu.

Sobre probidade, anotem: Domingo teremos o “Domingão do Cunha”, assim, sem aumentativo!

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